coronavirus

GESTÃO DE CRISE – A fenomenal capacidade de reposta da China perante a epidemia do Coronavirus

Se o coranavirus tivesse surgido no Brasil, teríamos a mesma capacidade de resposta da China?

E se essa epidemia tivesse início poucos dias antes do carnaval? Será que conseguiríamos reagir a uma crise epidemiológica?

Uma crise de saúde pública pode surgir em qualquer país, mas na China, as proporções são catastróficas. O país mais populoso do mundo que abriga 1,3 bilhão de habitantes, com megalópoles superpovoadas está mais preparado para lidar com crises do que outros países.

Outros casos de saúde pública surgiram na China. O SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) surgiu em 2002 e matou 774 pessoa e infectou 8.098. A pandemia do AH1N1, em 2009; e no ano passado, a Peste Suína Africana. As epidemias que afetam aves e suínos também assustam, e muito, pela redução da oferta de alimentos, e pela possibilidade do vírus ou bactéria também atacar a espécie humana, como ocorreu com a AH1N1. Até o final de janeiro de 2020, 8 milhões de suínos contaminados com a peste suína africana já foram abatidos na Ásia, segundo levantamento da Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO).  

Com esse histórico era de se esperar que a China construísse planos de contingências para reduzir danos e conter epidemias futuras. Neste contexto a China chama à atenção do mundo com a rápida tomada de decisão e a eficiência operacional.

O sistema comunista permite que o governo tome decisões rápidas e aja  eliminando qualquer processo burocrático. O domínio da comunicação pelo partido comunista e a integração com as lideranças locais, resultam em uma eficiente capacidade de mobilização. A forte industrialização do país se converte em uma surpreendente capacidade operacional que bem direcionada, como neste caso, se torna um trunfo no combate à epidemia.

A China dá uma lição ao mundo e por mais que seja incompatível comparar a nossa realidade a deles, temos muito a aprender. Reuni algumas medidas para reflexão.

1 – Definição de prioridades

O povo vem antes do capital. Primeiro as vidas humanas, depois os danos colaterais econômicos.

O secretário geral do partido, Xi Jinping, que também é presidente da China, presidiu a reunião. “A vida é de suma importância”, disse ele. “Quando uma epidemia ocorre, um comando é emitido. É nossa responsabilidade preveni-la e controlá-la.” Ele disse que os membros do partido em todos os níveis e em todo o país devem “estar na linha de frente” para proteger a saúde pública.

1 – É preciso conhecer o inimigo

Há mais de cinco anos, desde a epidemia da SARS, um bi laboratório de segurança máxima voltado ao estudo de organismos altamente patogênicos vem operando em Wuhan, em parceria com a França.

Sem saber quem está atacando não é possível criar uma estratégia de enfrentamento e controle.

Em uma semana os chineses concluíram a identificação vital e o sequenciamento do coronavírus. Na epidemia da gripe suína, em 2009, nos Estados Unidos, 55 milhões de americanos foram infectados e onze mil morreram – o CDC levou mais de um mês e meio para produzir os kits de identificação. 

Durante a epidemia do ebola na África Ocidental, em 2014 – considerada de máxima urgência, e enfrentando um vírus com 90% de taxa de letalidade, o CDC levou dois meses para, após receber a primeira amostra de paciente, identificar a sequência genômica completa. 

O novo vírus tem 96% de concordância com um coronavírus transmitido por morcego. Cientistas chineses já entregaram a seus colegas russos o genoma do vírus, com exames instantâneos capazes de identificá-lo em um corpo humano no prazo de duas horas. Uma vacina russo-chinesa já está sendo desenvolvida.

Todo o mapeamento está disponível na internet para que centros de pesquisa no mundo todo possam acessar.

2 – Capacidade de mobilização

Em poucos dias, no pico mais congestionado do período do ano em que mais se viaja  na China, o país conseguiu colocar em quarentena um ambiente urbano de mais de 56 milhões de habitantes, incluindo a megalópole Wuhan e três cidades próximas. Essa é a absoluta primeira vez que isso acontece em termos de saúde pública em qualquer época da história.

Em 02/02, 8.310 médicos de 29 províncias, regiões e municípios autônomos e 68 equipes médicas militares chegaram para receber assistência no combate ao coronavírus em Hubei.

3 – Comunicação transparente

Presidente Xi  decretou a todo o aparato governamental deve ser utilizado para relatar os avanços do vírus, bem como as ações que estão sendo tomadas. Tudo em tempo real. Qualquer tentativa de acobertamento enfrentará severas consequências.  Consulte a página com a linha do tempo em inglês >>> https://www.globaltimes.cn/content/1177737.shtml

4 – O mapeamento e conexão de possíveis doentes a núcleos de voluntários.

Através do um app, qualquer pessoa que apresente febre poderá informar seus sintomas pela rede, assim que possível. O sistema, imediatamente, fornecerá um diagnóstico on-line e irá localizar e registrar o endereço de quarentena. Caso seja necessária a visita de um médico, a comunidade, por meio dos voluntários, providenciará o transporte até o hospital. Ao mesmo tempo, o sistema irá monitorar a evolução do paciente: hospitalização, tratamento em casa, alta, óbito etc. 

5 – O enfrentamento rápido

A construção de dois hospitais exclusivos para tratar os infectados em tempo apenas 10 dias surpreende o mundo. O segredo dessa agilidade são as construções pré-fabricadas. Os módulos vão sendo montados assim que chegam da fábrica por mais de 1.000 pessoas trabalham dia e noite para iniciar o atendimento no dia 03 de fevereiro.

Duas unidades montadas a partir de pré-fabricados no epicentro do coronavírus, a cidade de Wuhan, deverão receber, juntas, mais de 2 mil pessoas.

Enquanto os primeiros módulos eram montados, operários preparavam a rede elétrica do novo local.

Hospital Huoshenshen

  • Área: 25 mil metros quadrados
  • Capacidade: 1 mil leitos
  • Início da construção: 25 de janeiro
  • Início do funcionamento: 3 de fevereiro
  • Significado do nome: Monte do Deus Fogo

Hospital Leishenshan

  • Área: 30 mil metros quadrados
  • Capacidade: 1,3 mil leitos
  • Início da construção: 25 de janeiro
  • Início do funcionamento: 5 de fevereiro
  • Significado do nome: Monte do Deus Trovão

“Fora da China, não existe nada igual ao modelo que eles estão usando”

6 – Redução de danos

A epidemia, que já deixou mais de 300 mortos e 14 mil pessoas infectadas, paralisa a China e sua economia, com parte da população trancada em suas casas por medo da doença.

China injetará US$ 175 bilhões para estimular economia

Em comunicado, BC chinês informou que a operação servirá para manter ‘uma liquidez razoável e abundante’ no sistema bancário, assim como para estabilizar o mercado de câmbio.

Mas como em toda crise há sempre novos aprendizados. A china também cometeu erro e recebeu muitas críticas relacionadas a imissão de informações no início do surto.

7 – Erros cometidos e pontos a melhorar

  • “Estou dominado por um sentimento de culpa, de remorso e culpo-me”, disse Ma Guoqiang, secretário do Partido Comunista Chinês em Wuahn, referindo-se à forma como administrou a crise viral nos seus primeiros dias. A demora na notificação dos primeiros casos permitiu que o vírus altamente contagioso se alastrasse rapidamente e em poucas semanas passou de centenas para milhares de contaminados.
  • Apesar de conferir transparência sobre as medidas tomadas, os canais de comunicação utilizados foram criticados por transformar a situação em um grande big brother. A página na internet que foi utilizada para apresentar uma linha do tempo com publicações de medidas em tempo real e a transmissão ao vivo da construção dos hospitais pela TV estatal, foram consideradas como estratégia de marketing da China para o mundo.

Este artigo não teve como objetivo comparar a capacidade da China com a do Brasil, pois são realidades e modelos econômicos completamente diferentes. No entanto há atitudes que podem ser replicadas com seus devidos ajustes em caso de uma epidemia de saúde pública.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *